Planta chinesa passou a se camuflar para evitar um perigoso predador: os humanos

A Fritillaria delavayi é encontrada no alto de uma cadeia de montanhas na China e seu bulbo é usado pela medicina tradicional

Fritillaria delavayi

O bulbo da Fritillaria delavayi é muito usado na Medicina Tradicional Chinesa para tratar tosse (Foto: Yang Niu/CAS/Divulgação)

No alto das montanhas Hengduan, perto de Yulong, na China, é possível encontrar a Fritillaria delavayi, pequena e charmosa planta com folhas verdes e flores amarelas em forma de sino. Cada uma se destaca o ambiente cinza e rochoso.

Andando 105 km adiante, na mesma cadeia de montanhas, existem outros exemplares da mesma espécie, porém, com uma coloração mais amarronzada e opaca, parecida com as rochas que as cercam.

Por que a Fritillaria delavayi possui tantas cores diferentes? Segundo um artigo publicado no final de novembro na revista científica Current Biology, a plantinha desenvolveu as cores distintas porque os humanos costumam colher seus bulbos.

A descoberta sugere que esse vegetal é o exemplo mais recente em uma lista crescente de espécies que estão evoluindo devido às ações dos seres humanos.

Plantas que se camuflam

Como mostra o jornal americano The New York Times, o pesquisador Yang Niu, do Instituto Kunming de Botânica da Academia Chinesa de Ciências, principal autor do estudo, passou anos documentando possíveis exemplos de como as plantas se camuflam. As folhas manchadas de algumas espécies podem tornar mais difícil para os herbívoros localizá-las.

Essas plantas geralmente tentam enganar um predador específico, como a Corydalis benecincta, que vive em regiões de altitude elevada e que desenvolveu um tom de cinza mais sutil para se livrar de uma borboleta que morde suas folhas.

“Outros tipos de plantas camufladas foram relatados em outros lugares do mundo e também possuem inimigos”, diz Niu, citado pelo jornal.

Em locais com pouca colheita humana, a F. delavayi adquire cor verde intensa
Em locais com pouca colheita humana, a F. delavayi adquire cor verde intensa (Foto: Yang Niu/CAS/Divulgação)

Humanos como predadores

A coloração variável da F. delavayi foi especialmente intrigante porque nenhum animal parecia comê-la.

Mas os bulbos dessa espécie são usados na Medicina Tradicional Chinesa para tratar a tosse. As pessoas coletam essa parte da planta há mais de 2.000 anos. Portanto, tudo indica que seu inimigo são os humanos.

Por isso é possível encontrar a plantinha mais camuflada em regiões de coleta mais intensa.

Para testar essa hipótese, os pesquisadores chineses se concentraram em oito populações de plantas. Para avaliar a pressão da colheita em cada local, eles pediram registros aos comerciantes de ervas e os usaram para descobrir que proporção de cada população de F. delavayi havia sido colhida anualmente durante seis anos. Eles também estimaram o quão difícil era coletar as plantas em diferentes locais.

Para determinar a semelhança entre as plantas e o ambiente em que estavam inseridas, os cientistas pegaram amostras de rochas e folhas de cada local e compararam a cor e a intensidade da luz refletida.

Como resultado do estudo, as populações da plantinha que não eram amplamente devastadas pelos humanos, apresentavam cor verde, nem distinta. Mas aquelas que estavam sob pressão da colheita ganharam um tom mais escuro, marrom-avermelhado ou cinza.

Portanto, a pesquisa recém-publicada apresenta um caso bastante convincente de que a espécie humana vem sendo responsável pela adaptação da Fritillaria delavayi ao ambiente que a cerca, ou seja, que passou a usar o mimetismo como ferramenta de sobrevivência.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.