Laboratório de Wuhan, onde “surgiu” o novo coronavírus, pertence à GlaxoSmithKline, uma das donas da Pfizer?

Entenda a história que está se espalhando nas redes sociais e que não passa de mais uma fake news envolvendo a covid-19

Laboratorio - Pixabay

É verdade que o laboratório de Wuhan, na China, está ligado às farmacêuticas Glaxo e Pfizer, além de George Soros, Bill Gates e até a OMS? (Foto: Pixabay)

Vem circulando nas redes sociais uma informação de que o laboratório da cidade chinesa de Wuhan, onde supostamente se originou o novo coronavírus (SARS-CoV-2), pertenceria à empresa farmacêutica britânica GlaxoSmithKline, que, por sua vez, faria parte de uma cadeia de conexões que vai desde a biofarmacêutica americana Pfizer até a gestora de fundos de investimentos BlackRock, passando pela Microsoft e Bill Gates.

Mas, é claro que se trata de mais uma fake news que vem se espalhando na internet, como mostra a agência de notícias AFP. O mencionado Instituto de Virologia de Wuhan, na China, não tem nenhuma relação com a Glaxo, pois é propriedade do governo chinês. Além disso, embora a GlaxoSmithKline e a Pfizer tenham formado uma aliança comercial, ainda são concorrentes.

post de fake news no Facebook
Essa é a versão em inglês da fake news que vem se espalhando nas redes sociais, especialmente no Facebook (Foto: Facebook/avery.holder.16/Reprodução)

Como mostra a AFP, uma nota da revista científica Nature de 2017 revela que a criação do laboratório de Wuhan, que vem gerando polêmica desde o início da pandemia de covid-19, foi aprovada em 2003 pela Academia Chinesa de Ciências e foi construído com a ajuda do Centro Internacional Francês de Pesquisa em Infectologia. O instituto chinês foi inaugurado em 2015.

Numerosas teorias da conspiração afirmam que o SARS-CoV-2 foi criado em Wuhan, ou que “escapou” dele. O próprio Donald Trump disse em abril que “tinha provas” de que a pandemia se originava no referido instituto, mas nunca as apresentou.

Nenhuma conexão estrangeira

A agência de notícias diz ainda que tanto nos documentos ligados à inauguração como nas páginas de informação corporativa do site do Instituto de Virologia de Wuhan não há menção da participação de qualquer empresa estrangeira. Ele depende unicamente da Academia Chinesa de Ciências, que, por sua vez, é vinculada ao governo chinês.

Uma busca no site da Open Society Foundations, fundação criada pelo bilionário George Soros, mostra que não há menções da seguradora francesa AXA vinculadas a transações monetárias Ela é citada apenas como exemplo de ações judiciais de empresas para proteger sua propriedade intelectual. Além disso, a organização filantrópica de Soros não aparece nos organogramas da AXA.

O Winterthur Group, por sua vez, era uma seguradora suíça (não alemã) que foi adquirida pela AXA em 2006. Uma pesquisa no Google não retorna resultados sobre uma suposta construção de um laboratório na China pela extinta empresa.

Por outro lado, a Allianz destaca em seu site que possui escritórios na China, especificamente em Pequim, Xangai e Guangzhou. Não há menções a Wuhan ou a um laboratório da empresa com sede naquele país.

Na página de informações corporativas da multinacional Glaxo na China, não há menção de sua participação no famigerado instituto ou em qualquer outro centro de pesquisa em Wuhan. A farmacêutica possui duas joint-ventures no país asiático e está presente nas cidades de Xangai, Pequim e Tianjin.

GlaxoSmithKline e Pfizer

De acordo com informações do site de finanças da emissora americana CNN, a biofarmacêutica Pfizer é controlada majoritariamente pelo The Vanguard Group, com 7,67% de suas ações. A empresa Glaxo não aparece na lista de acionistas da Pfizer, embora apareça o fundo Capital Research & Management, que possui apenas 0,67% da GlaxoSmithKline. Portanto, a correlação feita pelas teorias das redes sociais não é correta.

Em dezembro de 2018, as duas empresas farmacêuticas se fundiram em uma joint-venture, criando em 2019 a GSK Consumer Healthcare, uma aliança para a comercialização de produtos específicos como Sensodyne, Voltaren, Advil e Centrum. Não se trata, porém, de uma operação de compra de uma empresa pela outra e ambas continuam a ser concorrentes no setor farmacêutico.

BlackRock, Pfizer, Soros e outras relações

Como esclarece a AFP, a BlackRock é uma das principais administradoras de fundos no mundo e, como tal, possui participações em dezenas de milhares de empresas, incluindo a Pfizer. Além disso, ela contempla inúmeros investidores, incluindo o magnata George Soros, que é conhecido por investir em diversas administradoras.

A Pfizer também recebeu dinheiro da Fundação Bill e Melinda Gates, que investiu na empresa farmacêutica para levar o anticoncepcional injetável Sayana a países em desenvolvimento.

A fundação criada pelo fundador da Microsoft também informou em setembro de 2020 que colaboraria com várias empresas que trabalham no desenvolvimento de vacina contra covid-19. No entanto, nem a fundação nem o casal Gates estão entre os principais acionistas da Pfizer.

De acordo com a AFP, a fundação de Bill Gates também está entre os maiores doadores da Organização Mundial de Saúde (OMS), respondendo por 11,65% do dinheiro que a agência recebe. No entanto, não é o “patrocinador principal”, já que o dinheiro aportado pelo governo alemão representa 12,18% da receita do órgão das Nações Unidas.

Em resumo, nada prova que o Instituto de Virologia de Wuhan seja propriedade da empresa GlaxoSmithKline, que também não pertence à Pfizer. Da mesma forma, não há relação entre as seguradoras Winterthur e Axa com o laboratório chinês.

Por outro lado, a empresa de gestão de fundos BlackRock, que detém parte das ações da Pfizer, tem participação do investidor George Soros, além de muitas outras pessoas. Além disso, Bill e Melinda Gates investiram na Pfizer para o desenvolvimento de projetos específicos e não são os principais acionistas. Finalmente, a Fundação Bill e Melinda Gates está financiando a OMS, mas não é seu principal apoiador.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.