Enxaguante bucal não previne covid-19, apesar do que dizem as redes sociais

Especialistas afirmam que a higienização da boca é algo passageiro e não elimina as fontes de coronavírus no organismo, como as cordas vocais e o nariz

Enxaguante Bucal

Componentes do enxaguante bucal podem matar o SARS-CoV-2, mas não impedem que o vírus retorne e infecte a pessoa (Foto: Stock.adobe.com/Andrey Popov/Reprodução)

Apesar de as redes sociais terem disseminado a informação de que um estudo da Universidade de Cardiff, no Reino Unido, descobriu em laboratório que um ingrediente usado nos enxaguantes bucais poderia matar o novo coronavírus (SARS-CoV-2) em 30 segundos, essa não é a solução para conter a pandemia de covid-19.

Isso porque muitas substâncias e agentes externos, como o Sol, podem matar um vírus, mas não atingem a fonte de disseminação do micro-organismo.

“Sim. Existem alguns dados por aí – não estou dizendo que sejam importantes – mostrando que a substância cloreto de cetilpiridínio [presente em enxaguantes bucais] inativa ou inibe a replicação do coronavírus”, afirma Graham Snyder, professor da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, em entrevista à emissora americana CNN.

Álcool, clorexidina, peróxido de hidrogênio (água oxigenada) e uma variedade de outros compostos também podem matar os vírus pelo contato ou logo depois.

Mas nenhum dos estudos divulgados recentemente mostra que podem reduzir o risco de pegar ou transmitir o vírus, alerta Snyder.

Ao invadir o corpo humano, o SARS-CoV-2 logo começa a se replicar constantemente no trato respiratório (nariz, seios da face, garganta, brônquios e pulmões).

“Ele permanece no nariz, no fluido das cordas vocais e nas vias respiratórias do pulmão. Em especial as cordas vocais e as vias pulmonares são as principais fontes de transmissão do vírus no ar”, comenta o especialista em vírus Donald Milton, da Universidade de Maryland (EUA), também em conversa com a CNN.

Seu colega Graham Snyder lembra que não adianta achar que a limpeza da boca é algo definitivo. “Quando expiramos, tossimos, espirramos ou o que for, o vírus pode estar vindo de qualquer lugar do corpo”, completa o cientista.

Esterilização ineficaz

Embora o uso de enxaguante bucal ou algum tipo de esterilizante oral possa, em teoria, reduzir a quantidade de vírus ou bactérias na boca por um curto período, não é possível a boca humana de qualquer micróbio, que crescerá novamente após um período bastante curto.

“Você não pode esterilizar a boca. Ela nunca estará totalmente livre de patógenos. Usar esses enxaguantes bucais não interromperá substancialmente o processo da doença. O vírus continuará a se replicar”, diz Snyder à emissora americana.

Ele alerta que o mesmo vale para a luz ultravioleta, seja do Sol, de uma lâmpada ou de dispositivos “anticoronavírus” que estão sendo vendidos no mercado. De acordo com o especialista, esse espectro da luz pode matar o vírus em superfícies, mas não entra no corpo humano corpo e, consequentemente, não impede que mais micro-organismos cheguem mais tarde.

A questão do enxaguante bucal é tão séria que a empresa farmacêutica americana Johnson & Johnson, fabricante do Listerine, publicou em seu site nos EUA um comunicado aos consumidores sobre o efeito do produto contra a covid-19.

“O enxaguante bucal Listerine não foi testado contra nenhuma cepa do coronavírus. Apenas algumas formulações contêm álcool e, se presente, corresponde a apenas cerca de 20% do volume. Listerine não se destina a ser usado, nem seria benéfico, como desinfetante para as mãos ou para superfícies”, diz a empresa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.