Entenda porque o tempo parece não passar durante a quarentena

Especialistas esclarecem a diferença entre o tempo físico e o psicológico, que é impactado pelo isolamento social causado pela Covid-19

Hora de Relógio

Você sente que o tempo demora mais a passar durante a quarentena, quando ficamos mais tempo em casa? (Foto: Pixabay)

Durante a quarentena provocada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2), muita gente diz ter a sensação de que o tempo está passando rápido ou devagar demais. Até que ponto isso é verdade?

A Universidade John Moores em Liverpool, na Inglaterra, realizou um estudo e constatou que 80% dos entrevistados sentiram alguma distorção na passagem das horas durante o período da quarentena no Reino Unido.

Usando um questionário online, os cientistas coletaram informações sobre a passagem do tempo em relação ao dia e à semana. Além disso, foram medidos o afeto, a carga de tarefas e a satisfação com os níveis atuais de interação social.

“As descobertas demonstram que mudanças significativas na vida diária têm um impacto significativo em nossa experiência de tempo, com pessoas mais jovens e socialmente satisfeitas mais propensas a sentir que o tempo passar mais rapidamente durante a quarentena”, afirmam os pesquisadores britânicos no estudo publicado em julho no periódico científico PLOS One.

Tempo físico vs tempo psicológico

Segundo o professor Osvaldo Frota Pessoa Júnior, do departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista para a Rádio USP, existe uma divisão básica entre o tempo considerado de maneira física, trabalhado pela ciência, e o tempo subjetivo, utilizado na filosofia.

“A ciência trabalha basicamente com o tempo físico, que é um tempo que transcorre independentemente dos seres humanos, da existência de seres conscientes no Universo. Agora, as abordagens filosóficas, elas costumam partir da intuição que o sujeito tem do tempo. Então, o tempo da ciência vem depois porque é uma construção intelectual e, para a mente humana funcionar, tem que haver um sentido pessoal de tempo, que seria anterior ao científico”, afirma o professor.

Por que existe uma sensação de que o tempo passa mais devagar quando não fazemos nada e mais rapidamente quanto estamos aproveitando alguma atividade?

Sensação de tempo como instinto humano

Para o psiquiatra Arthur Danila, da Faculdade de Medicina da USP, também em entrevista à Rádio USP, isso remonta a uma estrutura neurobiológica que está preparada para lidar com situações de potencial risco à sobrevivência.

“Nós passamos a ficar mais presos atentamente a situações de risco e, geralmente, essas são situações mais tediosas ou mais tristes e preocupantes. Nos bons momentos talvez nosso cérebro não tenha a necessidade de registrar tão fielmente cada momento e, portanto, a gente parece ver o tempo transcorrer mais rapidamente”, esclarece o especialista.

Durante a quarentena, embora os dias pareçam passar lentamente para quem está em isolamento dentro de casa, ao assistir aos noticiários, a percepção é outra. “Essa dicotomia entre a experiência que nós temos, de certa tranquilidade em nossas casas, ao mesmo tempo em que nós estamos cientes de várias informações preocupantes vindas pelas mídias, faz com que a nossa cabeça fique muito confusa e influencie a nossa percepção do tempo”, afirma Arthur Danila à rádio.

O psiquiatra lembra que neste período em que vivemos, é normal ter dificuldades para dormir, já que atrasamos o período do sono e acordamos mais tarde. Além disso, uma das desordens relacionadas ao ciclo sono e à vigília é a sonolência diurna, que pode impactar diretamente a qualidade de vida, diminuindo a produtividade e gerando uma sensação de maior desgaste e exaustão emocional ao longo do dia.

Danila dá duas dicas para quem quer “sofrer menos” com a quarentena:

  • Utilizar alarmes para delimitar o tempo a ser dedicado para cada atividade
  • Montar cronogramas no início de cada semana com as atividades a serem efetuadas

(com Rádio USP)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.