Frango brasileiro importado pela China não pode transmitir coronavírus, dizem especialistas

O SARS-CoV-2, causador da Covid-19, é muito frágil às mudanças de temperatura e não resistiria ao processo de exportação, segundo especialistas ouvidos pelo The New York Times

Pedaços de frango cru

As chances de ser contaminado pelo coronavírus ao ingerir alimentos é extremamente baixa, afirmam especialistas americanos (Foto: Freepik)

Depois que a China revelou ter encontrado amostras do novo coronavírus (SARS-CoV-2) em asas de frango congeladas importadas do Brasil, logo surgiu uma onda de medo e desinformação nas redes sociais.

Porém, especialistas ouvidos pelo jornal americano The New York Times nesta quinta, dia 13 de agosto, afirmam que a probabilidade de contrair o vírus causador da Covid-19 por meio de alimentos – especialmente congelados e embalados – é extremamente baixa.

“Isso significa que alguém com o vírus provavelmente manipulou aquelas asas de frango. Mas isso não significa,’Meu Deus, ninguém compra asinhas de frango porque estão contaminadas’”, diz a virologista Angela Rasmussen, da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, em entrevista ao periódico.

A principal via de contaminação pelo coronavírus de pessoa para pessoa é por meio de gotículas expelidas pelos espirros, pela tosse, pela fala ou mesmo durante a respiração.

Dificilmente o vírus é exportado

“Não vejo nenhuma conexão entre o frango congelado contaminado e qualquer medo de que represente transmissão de longa distância”, comenta o ecologista de doenças C. Brandon Ogbunu, da Universidade de Yale (EUA), também entrevistado pelo The New York Times.

De acordo com o especialista, quando um vírus cruza as fronteiras internacionais, “é quase certo que seja conduzido por pessoas, em vez dos produtos comerciais”.

Ele lembra que o procedimento laboratorial usado pela China, ou seja, a busca por traços de RNA (uma das formas do DNA) é apenas um indicador da presença do vírus, que pode deixar para trás pedaços de seu material genético mesmo depois de destruído. “Isso serve apenas para detectar a assinatura de que o vírus esteve lá em algum ponto”, completa o ecologista de doenças.

Ogbunu explica que para provar que um vírus perigoso e viável permanece vivo na comida ou na embalagem, os pesquisadores precisam isolar o micro-organismo e provar que ele é capaz de se reproduzir. “Esses experimentos são logisticamente desafiadores e requerem pessoal especialmente treinado, e não fazem parte dos testes típicos”, diz o cientista americano.

Vírus pouco resistente

Os especialistas ouvidos pelo jornal esclarecem que uma série de eventos extraordinariamente incomuns precisaria ocorrer para que o novo coronavírus fosse transmitido por meio da carne congelada embalada.

Dependendo da origem do micro-organismo, ele precisaria suportar uma longa viagem estando congelado – provavelmente derretendo e recongelando pelo menos uma vez ao longo do caminho – e então despertar e chegar às mãos, nariz ou boca de uma possível vítima.

Ainda mais improvável é o cenário de que um vírus possa permanecer na comida depois de ser aquecido, sobreviver sendo engolido e atravessando a acidez do nosso trato digestivo e ainda assim se instalar nas vias respiratórias.

“Os riscos de que isso aconteça são incrivelmente pequenos”, diz Angela Rasmussen ao The New York Times.

Alguns vírus até podem resistir ao congelamento, mas não é o caso do SARS-CoV-2, que possui uma camada externa frágil, sendo vulnerável a todos os tipos de distúrbios ambientais, incluindo mudanças extremas de temperatura.

“O ato de congelar e descongelar é um processo termodinâmico violento. Um vírus, com toda a sua resistência e robustez, é um instrumento de infecção muito delicado”, comenta Brandon Ogbunu ao periódico americano.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.