Quem vive em altas altitudes pode ser mais ‘resistente’ à Covid-19

Estudo canadense encontra relação entre a adaptação a altitudes acima de 2.500 m e a menor incidência de casos graves da infecção causada pelo novo coronavírus

Montanhas do Peru

Quem vive em regiões de altitudes muito elevadas pode ser menos vulnerável às complicações da Covid-19, diz estudo canadense (Foto: Pixabay)

Uma pesquisa recente constatou que há menor incidência de casos graves da Covid-19 em regiões de altitude muito elevada, em especial no Tibete e em partes da Bolívia e do Equador – todas mais de 2.500 m acima do nível do mar.

Realizado pela Faculdade de Medicina da Universidade Laval, no Canadá, e publicado em meados de julho na revista científica High Altitude Medicine & Biology, o estudo aponta que a aclimatação fisiológica ou características ambientais particulares associadas à alta altitude podem proteger as pessoas do novo coronavírus (SARS-CoV-2).

Os cientistas indicaram vários mecanismos que podem explicar essa possível resistência à infecção, incluindo o menor número de receptores celulares que o vírus usa para invadir as células e uma maior tolerância a baixas concentrações de oxigênio nos tecidos.

Além disso, eles sugerem que o coronavírus pode não estar bem adaptado às condições frias e secas das regiões de grandes altitudes, o que reduziria sua transmissão.

No entanto, o estudo demanda cautela na interpretação dessas evidências, já que alguns países de baixa altitude, como algumas ilhas do Pacífico, também têm incidência muito baixa de Covid-19.

Menos receptores para o SARS-CoV-2

Os pesquisadores das Universidade Laval sugerem que a adaptação fisiológica a baixos níveis de oxigênio em pessoas que vivem em grandes altitudes pode resultar em células com menos receptores ACE2, que estão presentes nas membranas celulares e servem de “porta de entrada” para o novo coronavírus.

No entanto, as evidências sobre o efeito de baixos níveis de oxigênio no sangue sobre o número de receptores ACE2 são variadas, segundo os cientistas canadenses.

O mais importante, afirmam os pesquisadores no artigo recém-publicado, é que até agora não haviam sido realizadas análises em animais ou pessoas sobre o efeito de baixos níveis de oxigênio na produção ou na “expressão” de ACE2 nas células que revestem o trato respiratório – justamente onde o vírus da Covid-19 se instala após a infecção.

Baixos níveis de oxigênio

Os corpos das pessoas que vivem no ambiente de baixo oxigênio em grandes altitudes são adaptados para usar o ar com mais eficiência: o sangue contém concentrações mais altas de hemoglobina, que é a molécula que transporta oxigênio para as células.

Portanto, como mostra o estudo, é concebível que essas adaptações possam tornar as pessoas mais tolerantes aos danos provocados pela Covid-19 nos pulmões.

Ainda assim, como as pessoas que vivem em grandes altitudes já têm concentrações mais baixas de oxigênio no sangue, reduções adicionais como resultado da infecção pelo SARS-CoV-2 podem ser realmente mais perigosas para eles, alertam os cientistas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.