Força está no cérebro e não nos músculos, diz estudo

Cientistas descobriram que a força muscular está totalmente ligada à quantidade de impulsos nervosos gerados

musculação

Estudo britânico descobre que durante a atividade física, força muscular começa no cérebro (Foto: Frank 'Fg2' Gualtieri/Wikimedia/Divulgação)

Se você começar a levantar peso, saiba que não são os músculos que se fortalecem no início, mas sim, o sistema nervoso. Isso foi comprovado por um estudo recente feito com macacos.

Cientistas da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, induziram as cobaias a praticarem atividade semelhante a várias flexões de braço e o resultado mostra que o treinamento de força é mais complexo fisiologicamente do que se imagina.

Músculos não “crescem” rápido

Aqueles que ingressam numa academia – ou que começam a praticar musculação em casa, em época de quarentena provocada pelo novo coronavírus – podem sentir uma certa decepção inicial quando os músculos não ganham volume rapidamente.

Além disso, os pesquisadores britânicos lembram, no artigo publicado no final de junho no periódico científico The Journal of Neuroscience, que certas pessoas, incluindo mulheres e pré-adolescentes, adicionam pouca massa muscular óbvia, não importa quanto peso levantem.

Mas quase todo mundo que realiza exercícios de intensidade logo se torna capaz de gerar mais força muscular, o que significa que podem empurrar, puxar e carregar mais peso do que antes, mesmo que os músculos não pareçam maiores.

Sistema nervoso no comando

Cientistas já sabem há algum tempo que o aumento precoce de força envolve mudanças nas conexões entre o cérebro e os músculos. O processo parece envolver determinados neurônios, que geram comandos do córtex motor do cérebro, responsável pelas contrações musculares, passando pela medula espinhal e chegando até os músculos.

Se esses comandos se tornarem mais rápidos e fortes, os músculos receptores devem responder com contrações mais poderosas. Portanto, na prática, eles se mostram “mais fortes”.

O estudo recém-divulgado avalia justamente como se dá essa mecânica no sistema nervoso. A compreensão de como os músculos ficam mais fortes poderá ajudar as pessoas que perdem força ou controle muscular após um derrame, por exemplo, ou como resultado natural do envelhecimento (sarcopenia).

Na pesquisa, macacos japoneses realizaram exercícios físicos equivalentes a flexões de braço (Foto: Pixabay)

Macacos fazendo exercícios físicos

Os pesquisadores da Universidade de Newcastle implantaram cirurgicamente minúsculos transmissores e eletrodos em duas fêmeas de macaco japonês. Com isso, foi possível acompanhar as respostas nervosas à medida que os animais se exercitavam.

Assim como os humanos, o macaco japonês, bem como outros primatas, possui dois feixes principais de nervos que transmitem mensagens do córtex motor. Um deles, chamado trato retículo-espinhal, é antigo em termos evolutivos, com conexões por todo o cérebro e no tronco cerebral – permitem habilidades motoras amplas, como manter uma postura.

No estudo, as cobaias realizaram musculação puxando com o braço direito uma alavanca conectada a pesos, enquanto os cientistas mediam quais nervos estavam mais ativos e por quanto tempo.

Por quase três meses, os macacos treinaram cinco vezes por semana, com os pesquisadores aumentando a resistência da alavanca até que os animais pudessem concluir um exercício equivalente a um humano fazendo 50 flexões de braço.

Cérebro como gestor da força

O impressionante ganho de força dos primatas foi impulsionado, segundo os dados obtidos, por mudanças num conjunto de nervos, que começou a enviar comandos progressivamente mais fortes e urgentes aos músculos.

Curiosamente, o trato retículo-espinhal foi o conjunto neural que mais se fortaleceu quando os animais realizaram as atividades.

“Essa descoberta ressalta que força não é apenas massa muscular. Você fica mais forte porque a mensagem neural em seus músculos aumenta”, diz a pesquisadora Isabel Glover, da Universidade de Newcastle, co-autora do estudo, em entrevista ao jornal americano The New York Times.

Os resultados comprovam ainda que a prática de exercícios físicos faz muito bem para nossa saúde mental, e não apenas para o físico.

Obviamente, o estudo foi realizado com macacos, embora “tenham um sistema nervoso muito semelhante ao dos seres humanos”, comenta a cientista.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.